O impostor [1]

Sexta-feira, dia nublado, daqueles bons de ficar na cama dormindo até 12h, mas isso ainda não era possível, Jorge acorda às 6:15 da manhã, toma seu banho, não fala com ninguém,  dá um grito para acordar seus dois filhos  senão chegarão atrasados na escola. Sua esposa ainda não levantara, o que o irritou já cedo, porque não havia café da manhã pronto. Sua última quinta-feira não havia sido muito boa, seu chefe lhe chamou atenção por um trabalho em atraso, e Jorge, detesta ser chamado a atenção. Ele sai, sem dizer uma palavra, pega o carro e dirige até a padaria, toma um café puro e bem forte e come um pão com manteiga, comenta com a funcionária que na sua casa não tinha café da manhã e que tivera que ir à padaria para não ficar com fome. A funcionária sorri e não diz nada.

Ele volta ao carro e vira a chave da ignição. O carro não liga. Tenta novamente e nada. Irritado espera mais uns 30 segundos e repete o ato, sem sucesso, pois o carro não funcionara. Deixa o carro ali mesmo no estacionamento da padaria e vai em direção ao ponto de ônibus. A essas alturas, Jorge estava extremamente irritado e pensava no ônibus lotado que teria que pegar, no carro estragado, no mecânico, no dinheiro que, provavelmente, não teria para pagar o conserto, na funcionária da padaria…

…a funcionária da padaria? Sim, pelo que parecia, ele se lembrava bem dela. Ela não havia dito nada, mas seus olhos cor de mel ainda brilhavam na mente de Jorge, um cabelo claro e liso, uma pele clara, e um corpo escultural, tudo isso passava pela cabeça dele. Um pouco estranho, já que não havia ficado nem 15 minutos no local. Logo vem seu ônibus, aborrecido ele entra, com uma cara de poucos amigos, paga a passagem e não há lugar para se sentar, murmura algumas palavras de reprovação e se segura para não cair na próxima curva. Finalmente chega ao trabalho, alguns dizem bom dia, outros não, Jorge, não diz uma palavra, vai em direção à sua sala e, ao colocar os pés dentro dela, avista seu chefe sentado em sua mesa. Ele diz um bom dia meio desajeitado e pergunta se pode ajudar em alguma coisa. O chefe responde que queria apenas se desculpar pelo que havia dito no dia anterior e que Jorge era um de seus melhores funcionários, que atrasos podem ocorrer com qualquer um. Jorge concorda com a cabeça e diz que não precisava se desculpar, que ele estava mesmo com o serviço atrasado. O chefe diz que espera a regularização e sabe que Jorge fará um bom trabalho. Continua dizendo a Jorge que tem um trabalho especial pra ele, que trataria a respeito na segunda-feira e sai em direção a sua sala.

Jorge se sente ótimo naquele momento. Elogiado pelo patrão, no fundo ele sabia que o patrão estava certo e, em sua mente, ele diz que era melhor mesmo que o patrão se desculpasse, porque ele era um ótimo funcionário. Naquele dia, Jorge trabalhara com um ótimo ânimo, saiu poucas vezes de sua sala. Ao fim do expediente, seu celular toca e é da escola dos filhos. Tom, seu filho de 16 anos estava causando problemas por lá, mas Jorge diz, grosseiramente, que ligassem para a mãe deles e que tinha que trabalhar. Alguns minutos depois sai do trabalho, lembra-se que não ligara para o mecânico e volta a padaria para ver o carro. Por sorte, ele ainda estava lá. Entra no carro, vira a chave e ele funciona. Jorge se alegra e acha que seu dia estava ótimo naquele momento. Olha para dentro da padaria e avista a jovem que o atendera pela manhã, fixado em olhá-la, fica estagnado durante uns 5 minutos então, ela o avista. Ele a cumprimenta com a mão e ela retribui.

Jorge vai para casa bem contente. Chega, guarda o carro, certifica-se de que ele iria pegar novamente e entra. Encontra a esposa, que o recebe com um sorriso enquanto prepara o jantar. Ele lhe dá um beijo e diz que vai tomar um banho. Ela se desculpa pelo café da manhã e diz que estava extremamente cansada e não conseguira acordar pela manhã. Ele apenas responde que tomou café na padaria.

Enquanto tomava banho, a imagem da mulher da padaria não lhe saía da mente. E ele, começava a maquinar um jeito de vê-la novamente. Sábado, Jorge se levanta cedo, dá uma corrida pelo quarteirão, volta pra casa, toma um banho, assiste televisão. Durante o almoço pergunta por seu filho Tom, o filho mais novo, Charles de 11 anos diz que o irmão estava na casa de um amigo e Jorge se lembra do telefonema da escola. Pergunta à esposa se ela havia recebido o telefonema e ela balança a cabeça dizendo que não. Charles comenta que ficou sabendo que o irmão havia se metido em uma briga, o que deixa Jorge Furioso. Ele dá um grito e diz que não aguenta mais aquele menino. Sua esposa tenta acalmá-lo, mas de nada adianta, ela só recebe mais grosserias e palavras desnecessárias. Jorge sai da mesa e deixa o prato, ainda cheio. Pega o celular, liga para Tom e pergunta onde ele está, o menino responde e Jorge diz que está indo buscá-lo naquele instante. Então, pega o carro e vai. Chegando no local, Tom sai da casa do amigo muito envergonhado e entra no carro. Jorge o recebe com um tapa. Tom se altera e começam a discutir durante todo o caminho de casa. Chegando lá, Tom joga a mochila no sofá, vai para o quarto e se tranca. Jorge vasculha a mochila do filho e encontra um cigarro. Fica desnorteado e aborrecido e não sabe muito o que fazer. Acusa a esposa de o estar acobertando o que gera mais um conflito doméstico. Sai de casa batendo a porta e vai até a padaria. Pede um café forte, levanta os olhos e enxerga a mulher que o encantara. Ela lhe serve e Ele não diz nada. Ela pergunta se está tudo bem, ele diz que está com alguns problemas. Ela sorri e diz apenas, não se preocupe, tudo ficará bem. Ficam conversando por alguns minutos e o humor de Jorge melhora significativamente. Ele elogia a mulher, que fica sem graça. Ele tem que ir, mas deixa seu telefone anotado em um guardanapo. Jorge vai para casa, toma um banho e sai, sem falar nada. Vai para um bar bem longe de seu bairro e toma algumas cervejas. Seu celular toca, era a mulher da padaria. Ele a convida pra sair e ela aceita. Ele a busca em casa e vão para outro bar. Tomam alguns drinks e conversam assuntos diversos. Ela pergunta se ele tem filhos, naturalmente ela sabia que ele era casado. Jorge não sabe o que dizer, pois o sentimento de estar ali com outra mulher era estranho pra ele, que nunca havia feito aquilo. Ele, desajeitado, responde que sim e mostra as fotos na carteira. A mulher se encanta e diz que ele deve ser um bom pai. Ele fica ainda mais desconsertado e muda de assunto. Ela sugere irem para um ambiente mais reservado. Ele aceita. Vão para o carro e se beijam. Ele leva o carro a um lugar deserto e ali mesmo eles têm relações sexuais. Ele a deixa em casa e pára em frente sua própria casa. Pensa no que vai dizer à sua esposa e como vai encarar o rosto de todos em casa. Entra e já estão todos dormindo, vai até o banheiro, pega o pijama, deita no sofá e adormece vendo televisão.

Domingo, todos acordam, é dia de ir pra igreja. A esposa de Jorge chama os filhos para irem à igreja, Tom não quer se levantar, mas ela insiste. Jorge se levanta e dá de cara com sua esposa, ela diz bom dia e ele responde. Ela pergunta porque  ele havia dormido no sofá e ele não responde nada. Apenas diz, vamos logo, estamos atrasados. Todos entram no carro e vão para a igreja. Chegam lá, descem do carro e Jorge puxa a esposa para perto de si e a segura pela mão, acenando para os irmãos que encontrava. Ela não entende, afinal, estavam brigados. Entram, sentam-se. O sermão era sobre perdão. A esposa de Jorge se sente incomodada, chama o marido e o pede perdão pela discussão. Ele dá um beijo em sua testa e diz que está tudo bem. Em sua mente passam as cenas da noite anterior, mas ele não se importa, só olha no relógio para saber se o culto estava terminando. Ao final do culto, o pastor pede que cumprimente os irmãos, mas Jorge estava com fome e queria ir embora. Com um sorriso estampado no rosto, puxa a esposa para ir embora. Os filhos o seguem, Tom, como sempre, emburrado, afinal também estava brigado com o pai, que nem lhe dava confiança. Eles vão para o carro e, ao entrarem, ela pergunta se havia algo de errado. Ele apenas sorri e diz que não poderia estar melhor, lhe dá um beijo na testa e diz que a ama.

“Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.”  Mateus 23:28

Lucas Ferreira

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