Rute: o sofrimento

Jesus-é-a-resposta-para-o-sofrimento

Nos textos anteriores, vimos o trajeto de Noemi e sua família até Moabe, procurando fugir da escassez que afligiu Belém e como em terra estrangeira Noemi e suas noras, Rute e Orfa, mulheres moabitas, ficaram viúvas.

Em meio a tantos acontecimentos vemos Noemi, nome que indicava ser uma mulher agradável, se tornar uma mulher amarga, tudo o que ela podia enxergar era como a mão do Todo – Poderoso havia se tornado contra ela, e lhe afligira. Noemi não conseguia enxergar pequenos relances de esperança que já começavam a aparecer.

Já li e ouvi muitas interpretações do livro de Rute, na maioria delas o autor ou pregador, atribui todo o sofrimento de Noemi às escolhas que ela e seu marido fizeram, saíram de Belém para terra estrangeira que adorava a um deus pagão, deixaram seus filhos casarem com estrangeiras… E temos visto várias especulações dessas quando se trata do sofrimento humano, não é mesmo? Uns atribuem aos muitos pecados, ao esfriamento espiritual, falta de fé, não orou suficiente … sim quando negligenciamos as disciplinas espirituais, ou fazemos escolhas seguindo nossa natureza pecaminosa enfrentaremos a consequência disso. Porém, o erro é pensar que o cristão que estando em plena comunhão com Cristo, não vai enfrentar sofrimento, pois não é isso que podemos constatar em várias histórias relatadas na bíblia, como por exemplo: Jó homem justo perdeu os filhos, os bens, a saúde (Jó 1:6-12); Jeremias, conhecido como profeta chorão, lutou contra sua insegurança, solidão, rejeição do seu povo (Jr 20:14-18); Elias cansado e com medo pediu até mesmo a sua morte (1 Reis 19:4); Davi, homem segundo o coração de Deus, em vários salmos expressa sua angústia, culpa, solidão (Sl 42:11); Paulo, espinho na carne (2Co 12:72Co 12:7) e outros (2 Co 11); Jesus angustiado (Lc 22:39-47) desamparado (Mt 27:46)

Mas para expor de maneira mais eficaz a questão do sofrimento do cristão, nada melhor do que o salmo 88, considerado o mais triste dos salmos, pois embora outros salmos também tragam lamentações como este, geralmente eles terminam com palavras de esperança, como retratando o alívio, renovo, júbilo, encontrado pelo salmista em Deus, depois de tanto clamar, já este termina com a palavra “trevas”, mostrando que mesmo após intensamente buscar a Deus e procurar nEle alívio, o salmista não encontra.

Este salmo foi escrito por Hemã, o ezraíta. Dois “Hemã” são citados, e não temos como saber 100% qual deles foi o autor do salmo 88. Um pertencia a tribo de Levi, do clã dos coatitas, filho de Joel, neto do profeta Samuel (I Cr. 6.33) seu nome significa “fiel”, ministrava o louvor diante do Tabernáculo (1 Cr. 6:32) e fora separado por Davi para ser vidente. Outro identificado como descendente de Judá por meio de Zerá, sua sabedoria erá somente ultrapassada pelo rei Salomão.

Mas do que ele sofria? Essa informação não nos é fornecida pelo texto, muitos de forma apressada interpretam que ele sofria de lepra por sua descrição nos versículos 8-9, mas tal possibilidade é eliminada pela questão de que os leprosos não podem frequentar o templo, sendo assim Hemã ou um levita ou um leproso, e não os dois aos mesmo tempo.  Durante todo o salmo, Hemã não atribui seu sofrimento a nenhum pecado ou circunstancia especifica, somente relata que sofre desde moço.

SENHOR Deus da minha salvação, diante de ti tenho clamado de dia e de noite.
Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os teus ouvidos ao meu clamor;
Salmos 88:1,2

Nesses dois primeiros versículos podemos ver que Hemã, mesmo em profundo sofrimento, sabia onde sua esperança deveria se encontrar, no Deus da sua salvação, é como se fosse uma declaração: sei que estou salvo em Ti, por mais que agora esteja difícil, a chegada é certa, o final é certo, pois é em Ti, junto à Ti, onde toda esta tribulação não será mais nada. Diante deste Deus, ele clama por socorro insistentemente.

Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura.
Estou contado com aqueles que descem ao abismo; estou como homem sem forças,
Livre entre os mortos, como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais, e estão cortados da tua mão.
Puseste-me no abismo mais profundo, em trevas e nas profundezas.
Sobre mim pesa o teu furor; tu me afligiste com todas as tuas ondas.
Salmos 88:3-7

Sua alma estava farta de males e angústias, já não encontrava forças, e para descrever sua situação usa a figura de soldados que quando feridos em campo de batalha que por não ter auxílio médico eram lançados entre os mortos, na cova e deixados para morrer, dado como morto, assim ele se sentia, desamparado, esquecido, por Deus.

Alongaste de mim os meus conhecidos, puseste-me em extrema abominação para com eles. Estou fechado, e não posso sair.
A minha vista desmaia por causa da aflição. Senhor, tenho clamado a ti todo o dia, tenho estendido para ti as minhas mãos.
Salmos 88:8,9

Sentia-se como um leproso, excluído, enjaulado, onde todos se afastaram dele, mesmo assim insistentemente clamava a Deus.

Mostrarás, tu, maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão?
Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade na perdição?
Saber-se-ão as tuas maravilhas nas trevas, e a tua justiça na terra do esquecimento?
Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti, e de madrugada te esperará a minha oração.
Salmos 88:10-13

Umas das passagens mais curiosas deste salmo para mim é esta. Hemã começa a questionar Deus a respeito de qual seria a vantagem para Deus, de sua morte. Mas onde ele coloca o motivo para continuar vivo? Na glória de Deus. Poderá eu morto te adorar? anunciarei sua bondade e fidelidade na sepultura? Ou as suas maravilhas e justiça? É humilhante comparar estes questionamentos aos nossos, quando passamos por tribulações, não é mesmo?

Senhor, porque rejeitas a minha alma? Por que escondes de mim a tua face?
Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado.
A tua ardente indignação sobre mim vai passando; os teus terrores me têm retalhado.
Eles me rodeiam todo o dia como água; eles juntos me sitiam.
Desviaste para longe de mim amigos e companheiros, e os meus conhecidos estão em trevas.
Salmos 88:14-18

E nestes últimos versículos vemos que Hemã continua a clamar, o quem tem feito desde sua mocidade, sem entender porque o Senhor o havia escondido a face, o perturbado desde moço.

Mas qual a razão e propósito de um salmo tão sombrio, e o que ele pode nos ensinar?

Primeiramente, sim o cristão sofre (Jo16:33), e nem toda causa é simples, ou revelada por Deus. O sofrimento não é sempre resultado de algo que fizemos, da mesma forma a falta de resposta não é por não estarmos fazendo o suficiente.

Segundo, O fim feliz da maioria dos salmos deste tipo é visto como dádiva, e não dívida; se Deus o retém, não se trata nem da Sua ira, nem da Sua derrota (Derek Kidner).

Terceiro, nossa esperança precisa estar no final certo, na salvação, no lar Celeste, e não nesta terra.

Quarto, sim este sofrimento está dentro da permissão de Deus, Ele é bom e ao mesmo tempo Soberano, Ele não encolheu sua mão, ou escondeu sua face. Ele somente visualiza o bosque enquanto nós temos apenas a visão de uma árvore.

Que nós possamos assim como Rute e Hemã, termos a certeza de onde vem a nossa tribulação assim como o alívio.

Emília Lazzaroni

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